Resenha do livro:
Novas Formas Clínicas no Início do Terceiro Milênio
Charles Melman


CMC Editora

ISBN: 85-8864-06-6
páginas: 160
ano: 2003


Leda Mariza Fischer Bernardino
Psicanalista, Associação psicanalítica de Curitiba

Em abril de 2002, durante três dias, por dezoito horas, cerca de trezentas pessoas encontraram-se em Curitiba para participar do seminário ministrado pelo psicanalista Charles Melman, em um evento que chegou a ser nomeado pelos presentes como um Congresso Lacaniano Brasileiro.

Foi um privilégio usufruir desta interlocução, no verdadeiro sentido do termo, promovida pela fala experiente, fascinante e, ao mesmo tempo, provocante deste aluno e parceiro de Jacques Lacan na École freudienne de Paris. A reverberação de suas palavras provocou perguntas, discussões nos intervalos, em estudantes, analistas em formação e nos muitos analistas presentes, vindos das mais diversas partes do Brasil: Brasília, Belém, Campo Grande, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis, para citar algumas.
Com seu estilo tranqüilo e bem humorado, Charles Melman passeou pelos mais densos conceitos da psicanálise lacaniana, sem sair de sua cadeira no centro do palco, demonstrando total domínio do público e do tema que se propunha a trabalhar.

Melman trouxe para o Brasil suas inquietantes interrogações sobre a modernidade, propondo construções teóricas particulares, sustentadas na teoria freudo-lacaniana e em sua prática pessoal como psicanalista. Da mesma forma, com muita curiosidade, aguardou a formulação de perguntas eacatou-as com júbilo, sem esconder seu orgulho por ter provocado tanto o público.
Neste seminário, ao mesmo tempo em que apresenta idéias novas e até mesmo revolucionárias para o discurso psicanalítico, como a proposta da heterotopia entre S1 e S2, Charles Melman retoma pontos já desenvolvidos em outros livros, atualizando de maneira rigorosa temas que lhe são caros, como a paranóia, o alcoolismo e a toxicomania.

Além disso, Charles Melman continua dando testemunho de atos corajosos, nos quais não hesita em tomar posição publicamente, pronunciando-se sobre questões cruciais para a modernidade, como a pedofilia, a adoção por casais homossexuais, como outrora o fez com relação ao uso consentido de drogas de substituição pelos toxicômanos, sempre provocando o incômodo que – como ele mesmo diz – é o efeito que o psicanalista deve sempre causar em tudo aquilo que se enrijece, como a ditadura intelectual do “politicamente correto”.
Tendo como fio condutor a mutação cultural em curso e suas conseqüências na vida social, política, e também na prática do psicanalista, Melman revisita a clínica psicanalítica para apresentar as novas faces da depressao, da histeria, da toxicomania e da psicose.

A grande questao que ele levantou – e que manteve em suspenso, para abordá-la somente ao final do seminário – foi se ainda haveria lugar para o inconsciente neste novo dispositivo cultural.

Suas próprias palavras: “As leis da linguagem retomam sempre sua potência”, proferidas em relação aos impasses das relações de casal, da subjetividade moderna, dos comportamentos aditivos contemporâneos, servem também como um contraponto – e, quem sabe, dão uma tonalidade de esperança – ao quadro de miséria social e subjetiva que contemplamos. E não deixam de ser um alento para os psicanalistas, à medida que enfatizam a relevância do lugar da psicanálise para o campo social.

Foram momentos únicos da história da psicanálise no Brasil, que podem agora ter um registro e uma maior difusão, a partir desta iniciativa conjunta da CMC Editora e das instituições promotoras do evento: Associação Psicanalítica de Curitiba e Biblioteca Freudiana de Curitiba1 .

O que se lerá a seguir são as palavras pronunciadas neste seminário, após um trabalho de transcrição e edição de texto. Procurou-se respeitar as escansões das intervenções, dividindo-as segundo os intervalos que aconteceram. Foram propostos títulos, de acordo com a seqüência da fala e a ênfase colocada por Charles Melman nos pontos abordados, a fim de melhor situar o leitor. Como em toda transformação de linguagem, como já dizia Freud, há uma mudança de registro. E essa transferência, como dizia Lacan, carrega um impossível, o que implica que – de um registro a outro – há uma perda.

Entretanto, nosso esforço foi grande no sentido de tentar permitir, ao leitor, uma transposição para essa atmosfera de troca, de cordialidade e de humor sutil que Charles Melman soube promover com sua vinda, pondo em ato um estilo de transmissão comprometido com os acontecimentos, no qual a prática da psicanálise adquire novo vigor.