Resenha do livro:
A Atualidade das Teorias Sexuais Infantis - Seminário I
Jean Bergès e Gabriel Balbo


CMC Editora
2001
174 p.
ISBN: 85-88640-01-5


Ana Marta Meira

O seminário de Jean Bergès e Gabriel Balbo, “A atualidade das teorias sexuais infantis”, realizado na Associação Freudiana Internacional nos anos de 1997 e 1998, e publicado a partir de transcrições, traduções e revisões rigorosas, revela-se uma contribuição fundamental no âmbito da psicanálise.

Desenvolvendo-se a partir de elaborações conjuntas de Jean Bergès e Gabriel Balbo, insere-se na via da clínica com crianças na direção de trabalhar o tema das teorias sexuais infantis. Ao mesmo tempo, são analisados casos de adolescentes e adultos que, em sua análise, as colocam em cena. Neste trabalho, os autores remetem o leitor a buscar, na obra freudiana e lacaniana, os substratos teóricos que sustentam a clínica psicanalítica, evidenciando os trânsitos em que se fundam as teorias sexuais infantis, a partir da singularidade com que se estabelecem os primeiros laços entre a mãe e a criança.

Nesta perspectiva, conceitos fundamentais se desdobram e entrelaçam com casos clínicos, entre eles: o recalcamento, as pulsões, a sexuação, a denegação, a sublimação, a imagem corporal, o narcisismo, o transitivismo, a agressividade, a linguagem, as articulações entre o imaginário, o simbólico e o real, a transferência. É neste ponto que se evidencia a brilhante elaboração de Bergès e Balbo: a teoria psicanalítica encontra, a viva voz, neste “dueto”, a possibilidade de ser articulada à clínica, estabelecendo novos recortes teóricos. Cada um destes conceitos é trabalhado com rigor, na busca das fontes teóricas que os sustentam, na leitura dos textos clássicos que fundam sua história, nas interlocuções que se realizam ao longo dos seminários e nas notas elaboradas pelo conselho científico1.

A leitura deste livro revela, para além dos pressupostos teóricos, o trabalho que se inscreve em sua articulação com a clínica. Cabe aos leitores percorrê-lo, mas neste ponto, ressalto uma das várias passagens que remetem à reflexão sobre a clínica psicanalítica, que refere-se às crianças hipercinéticas, objeto de pesquisas e intervenções medicamentosas na atualidade. Bergès afirma: “Compreende-se melhor qual é a função da agitação na hipercinesia, é uma função que pereniza a teoria sexual infantil até idades inclusive avançadas, e assim ela retoma pelo avesso o que Freud dizia no artigo sobre a Verneinung. É um meio de não pensar” (p. 130). Dirigindo sua escuta para além do fenomênico, Bergès e Balbo nos conduzem a uma travessia pelos avatares da construção das teorias sexuais infantis, levando a refletir acerca da posição do analista e de seus efeitos sobre a elaboração que a criança possa vir a realizar.

Sobre a transferência que se instala entre o analista e a criança, Bergès afirma que “Trata-se antes de mostrar que esse sujeito suposto saber não tem de fazer obstáculo para o saber constitutivo do sujeito” (p.63). É sobre esta dimensão que o texto sobre a atualidade das teorias sexuais infantis se funda: ali onde estas teorias se articulam, encontra-se em jogo a possibilidade de supor, na criança, a construção de um saber. E de permitir, a cada uma, que possa enlaçar, a partir de sua história, traços que a singularizem.


Ana Marta Meira
Psicanalista, psicóloga,
Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre,
Mestranda do Curso de Pós Graduação Psicologia Social e Institucional da UFRGS,
Membro do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre.

Publicada no Correio da APPOA – Março - 2002